Conversão Interior: O Chamado a Retornar ao Coração
"É no coração que se decide tudo: ali não conta o que mostramos exteriormente ou o que ocultamos, ali conta o que somos"
Formações
14.03.2025 - 10:00:00 | 4 minutos de leitura

Caríssimos irmãos, estamos vivenciando um tempo muito forte liturgicamente, que vai salientar para nós a palavra conversão, e a Mãe Igreja nos apontará atitudes concretas, como caminho para essa meta da conversão.
Gostaria de salientar, no entanto, que apesar da constante vigilância que devemos exercer em esfera pessoal aos elementos exteriores de nosso comportamento, o Senhor nos chama a uma “conversão interior”. A um voltar ao coração, e aos desejos e ídolos que o habitam. Pois, externamente já mudamos nossas roupas, nosso vocabulário, os lugares que frequentamos e cortamos determinados vícios que nos dominavam, ao menos os aparentes.
A conversão interior, no entanto, será possível por uma vida interior séria, assumida com dedicação. A Igreja como mãe nos orienta três práticas para esse tempo: jejum, esmola e oração. Particularmente gostaria de incentivar a não deixarmos nenhuma delas, mas dou um acento especial à oração. Pois a vida interior nos fará entrar em nós mesmos, para levar-nos a essa conversão interior, e os que adentrarem, encontrarão o que nosso pai Santo Agostinho encontrou, o Senhor. O buscava fora, e O achou dentro de si.
“Para além das muitas tentativas de mostrar ou exprimir o que não somos, é no coração que se decide tudo: ali não conta o que mostramos exteriormente ou o que ocultamos, ali conta o que somos. E esta é a base de qualquer projeto sólido para a nossa vida, porque nada que valha a pena pode ser construído sem o coração. As aparências e as mentiras só trazem o vazio [...] É necessário que todas as ações sejam colocadas sob o controle político do coração, que a agressividade e os desejos obsessivos sejam acalmados no bem maior que o coração lhes oferece e na força que ele tem contra os males” (Ele nos amou - Papa Francisco). Creio piamente que decidimos no coração em nossa liberdade pelo seguimento de Jesus. Por isso, será voltando ao coração e não dispersos dele, que viveremos a vigilância que aqui nos é proposta, sem escravizar-nos por nossas vontades, mas educando-as pelas decisões profundas do coração. O coração refletido aqui pelo Papa Francisco está para além de apenas a nossa porção sentimental, mas denota o centro da pessoa como um todo, portanto contempla também aqui a dimensão racional e espiritual, todas envolvidas em nossa decisão por uma consagração de vida em Deus.
Digo-lhes, é um compromisso básico, e para todo cristão. Irmãos, corramos, não percamos tempo nas futilidades, voltemos ao silêncio, voltemos à liturgia das horas, voltemos à Sagrada Escritura, à lectio divina, à meditação do rosário. A oração é própria para todos os estados de vida, todas as idades e todas as fases da vida vocacional. A oração não é uma experiência de prazer em sua essência, é uma necessidade vital, onde se vai porque se tem necessidade e não necessariamente porque se gosta. Estou lendo um livro de Dom Bernardo, e num trecho, tratando-se de transcrição de pregações de um retiro, diz:
“Para o próximo retiro o Fernando pode providenciar camisetas com a estampa ‘eu odeio rezar’ de um lado e no outro ‘mas faço assim mesmo’. Então depois de um entusiasmo inicial, descobrimos que, realmente, é chato rezar, é nojento rezar. Merton diz que sente muito, mas pede que rezemos” (Deus no coração, o coração em Deus).
Os que fazem essa experiência são os perseverantes, os firmes, os que tem menos dúvidas, pois se agarram no rochedo, que lhes dá segurança. São os capazes de bons discernimentos, são os que tem coragem de enfrentar os desafios. Não há formação, retiro, ou milagre algum que salve a vocação de alguém que não nutre vida interior. O sujeito que não reza, perde as batalhas, é vencido pelos inimigos que estão dentro de si mesmo. A vocação nos ultrapassa, o chamado é de ordem sobrenatural, “ ninguém triunfa se apoiando em suas forças” (I Sm 2,9).
Talvez um caminho ascético pertinente para esse tempo, seria nos perguntar: o que tem me tirado da oração, da intimidade com Deus? E essas respostas poderão nos ajudar a pensar sobre quais propósitos poderíamos aderir nesse tempo quaresmal. E não tenhamos medo dos sacrifícios necessários em vista de preservar o que é a nossa maior glória: Pertencer a Deus. Não há título algum, diploma ou honraria desse mundo que ultrapasse o sentido de uma “consagração de vida, o pertencimento a Deus”.
Uma santa Quaresma a todos nós!
Cristiane Liberato - Consagrada e Moderadora Geral Arca da Aliança
Caríssimos irmãos, estamos vivenciando um tempo muito forte liturgicamente, que vai salientar para nós a palavra conversão, e a Mãe Igreja nos apontará atitudes concretas, como caminho para essa meta da conversão.
Gostaria de salientar, no entanto, que apesar da constante vigilância que devemos exercer em esfera pessoal aos elementos exteriores de nosso comportamento, o Senhor nos chama a uma “conversão interior”. A um voltar ao coração, e aos desejos e ídolos que o habitam. Pois, externamente já mudamos nossas roupas, nosso vocabulário, os lugares que frequentamos e cortamos determinados vícios que nos dominavam, ao menos os aparentes.
A conversão interior, no entanto, será possível por uma vida interior séria, assumida com dedicação. A Igreja como mãe nos orienta três práticas para esse tempo: jejum, esmola e oração. Particularmente gostaria de incentivar a não deixarmos nenhuma delas, mas dou um acento especial à oração. Pois a vida interior nos fará entrar em nós mesmos, para levar-nos a essa conversão interior, e os que adentrarem, encontrarão o que nosso pai Santo Agostinho encontrou, o Senhor. O buscava fora, e O achou dentro de si.
“Para além das muitas tentativas de mostrar ou exprimir o que não somos, é no coração que se decide tudo: ali não conta o que mostramos exteriormente ou o que ocultamos, ali conta o que somos. E esta é a base de qualquer projeto sólido para a nossa vida, porque nada que valha a pena pode ser construído sem o coração. As aparências e as mentiras só trazem o vazio [...] É necessário que todas as ações sejam colocadas sob o controle político do coração, que a agressividade e os desejos obsessivos sejam acalmados no bem maior que o coração lhes oferece e na força que ele tem contra os males” (Ele nos amou - Papa Francisco). Creio piamente que decidimos no coração em nossa liberdade pelo seguimento de Jesus. Por isso, será voltando ao coração e não dispersos dele, que viveremos a vigilância que aqui nos é proposta, sem escravizar-nos por nossas vontades, mas educando-as pelas decisões profundas do coração. O coração refletido aqui pelo Papa Francisco está para além de apenas a nossa porção sentimental, mas denota o centro da pessoa como um todo, portanto contempla também aqui a dimensão racional e espiritual, todas envolvidas em nossa decisão por uma consagração de vida em Deus.
Digo-lhes, é um compromisso básico, e para todo cristão. Irmãos, corramos, não percamos tempo nas futilidades, voltemos ao silêncio, voltemos à liturgia das horas, voltemos à Sagrada Escritura, à lectio divina, à meditação do rosário. A oração é própria para todos os estados de vida, todas as idades e todas as fases da vida vocacional. A oração não é uma experiência de prazer em sua essência, é uma necessidade vital, onde se vai porque se tem necessidade e não necessariamente porque se gosta. Estou lendo um livro de Dom Bernardo, e num trecho, tratando-se de transcrição de pregações de um retiro, diz:
“Para o próximo retiro o Fernando pode providenciar camisetas com a estampa ‘eu odeio rezar’ de um lado e no outro ‘mas faço assim mesmo’. Então depois de um entusiasmo inicial, descobrimos que, realmente, é chato rezar, é nojento rezar. Merton diz que sente muito, mas pede que rezemos” (Deus no coração, o coração em Deus).
Os que fazem essa experiência são os perseverantes, os firmes, os que tem menos dúvidas, pois se agarram no rochedo, que lhes dá segurança. São os capazes de bons discernimentos, são os que tem coragem de enfrentar os desafios. Não há formação, retiro, ou milagre algum que salve a vocação de alguém que não nutre vida interior. O sujeito que não reza, perde as batalhas, é vencido pelos inimigos que estão dentro de si mesmo. A vocação nos ultrapassa, o chamado é de ordem sobrenatural, “ ninguém triunfa se apoiando em suas forças” (I Sm 2,9).
Talvez um caminho ascético pertinente para esse tempo, seria nos perguntar: o que tem me tirado da oração, da intimidade com Deus? E essas respostas poderão nos ajudar a pensar sobre quais propósitos poderíamos aderir nesse tempo quaresmal. E não tenhamos medo dos sacrifícios necessários em vista de preservar o que é a nossa maior glória: Pertencer a Deus. Não há título algum, diploma ou honraria desse mundo que ultrapasse o sentido de uma “consagração de vida, o pertencimento a Deus”.
Uma santa Quaresma a todos nós!
Cristiane Liberato - Consagrada e Moderadora Geral Arca da Aliança
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